mercoledì 17 dicembre 2014

A gênese do super-herói

Há vários pontos focais na história dos quadrinhos, como os precedentes do século XIX (por exemplo os "proto-quadrinhos" de Rodolphe Töpffer, esquecido pela memória cultural até sua redescoberta por Ernst Gombrich em seu Arte e Ilusão de 1960), os meados dos anos '50 e o Comics Code Authority ou a fase, a partir do final dos anos '80, de estabelecimento das graphic novels em títulos como Sandman e Watchmen. É contudo aos anos '30 que devemos a afirmação material do gênero, com a popularização dos comic books graças ao barateamento da impressão a cores, durante os quais se fixa um formato essencialmente inalterado.

Junto ao meio, a mesma década também estabelece o protagonista por antonomásia dos quadrinhos, o super-herói. A origem desta figura hoje arquetípica é particularmente debatida, inclusive pelas leituras psicológicas (como já praticado no Seduction of the Innocent de Fredric Wertham) e pelas frequentes críticas que percorrem o fácil caminho de assimilação com as filosofias da virada do século, motivadas pelo indiscutível paralelo entre o Superman de Siegel e Shuster e o Übermensch de Nietzsche, paralelo que merece uma análise muito mais pausada. Justamente o Superman costuma ser apontado como o primeiro super-herói, inspiração para os demais. Apesar de ser posterior a outros vigilantes dos quadrinhos que logo veremos, considerando-se sua fama trata-se de uma boa escolha em termos cronológicos, pois o herói de Krypton, de 1938, é anterior a praticamente todos os personagens ainda ativos (entre os mais antigos, Batman é de 1939, Wonder Woman, Aquamen e Captain America são de 1941). Postura por vezes criticada, apontando-se em outras artes os verdadeiros primeiros super-heróis, dos quais o protagonista de Siegel Shuster seria apenas uma expressão juvenil de influência modernista; uma concretização, na história desta arte, daquela interpretação dos quadrinhos como prolongamento da cultura de massa, na qual ainda se subentende uma certa inferioridade estética, dos mitos da alta cultura, daquela noção da história da arte alemã do gesunkenes Kulturgut ("cultura afundada") que Mikhail Bakhtin discute ao tratar das apropriações culturais em Rabelais (cfe. Bakhtin, passim).

É assim, por exemplo, que a força descomunal do Superman é explicada por antecedentes literários como o Sansão bíblico ou o Hércules clássico. Uma leitura aceitável, pois além das influências narrativas é preciso lembrar como, ainda hoje, os desenhistas de quadrinhos se inspiram no vocabulário gráficos clássicos e principalmente neoclássicos ao buscar soluções para seus argumentos exigentes em músculos e movimentos de batalha, algo particularmente válidos naquele período de baixíssimo reconhecimento dos quadrinhos como estética, quando os autores eram autodidatas ou egressos de pouco sucesso de escolas de Belas Artes, em ambos os casos tendo como referencial concreto, num período segmentado entre os vários vanguardismos e o academicismo, precisamente os quadros antigos. Não é casualidade que a hoje antológica capa do primeiro Action Comics, no qual debuta o Superman, releia muitas soluções de quadros do Renascimento e adote várias técnicas antigas nas proporções e da disposição do corpo da figura central, da qual pode-se contemplar o corpo inteiro, sem sobreposições.

Capa do Action Comics #1, Joe Shuster (1938), 10-1/2x7-3/4 in. (26,7x19,7 cm)

Ercole e l'idra, Antonio del Pollaiolo (1475), 17x12 cm.

Interessante questão de influências entre artes para a história da cultura, mas que pouco resolve aquela mais circunscrita da efetiva gênese dos super-heróis de quadrinhos, de sua evolução. Resolve-la pela identificação de referenciais clássicos acaba, como no caso das histórias da literatura mais tradicionais, projetando a situação do presente na organização do passado, neste caso específico atribuindo à personagem de Siegel e Shuster inovações, como força sobre-humana ou luta contra o mal, e uma importância, como preferência de público (especialmente para aquele pouco habituado com os efetivos comic books), questionáveis.

Capa de edição brasileira, sem data. Fonte: Super-heróis em geral
A luta do bem contra o mal, talvez o fator que acomune os heróis dos quadrinhos e da literatura (com superpoderes ou menos), já havia figurado, entre outros hoje esquecidos, em Scarlet Pimpernel de Emma Orczy (1905), obra e peça de grande sucesso e precursora direta de Zorro de Johnston McCulley (1919), Buck Rogers de Philip Francis Nowlan (1928) e The Shadow de Walter B. Gibson (1930). Todos protagonistas, em originais e especialmente derivações, de pulp fictions, talvez o gênero literário imediatamente anterior aos quadrinhos não apenas por frequentemente competirem pelo mesmo público, mas também por serem organizados segundo uma produção de massa (inclusive nas controversas workshops) que alguém poderia ficar tentado em dizer "anterior a seu tempo". É das pulp fictions, especialmente em seu gosto por personagens mascarados, que nascem os primeiros heróis dos quadrinhos, como Mandrake e The Phantom (respectivamente 1934 e 1936, ambos frutos da imaginação de Lee Falk) e The Clock (criado por George Brenner em 1936) -- como reconhecimento a esta dívida, baste lembrar que a DC há muito estabeleceu que o filme que Bruce Wayne e seus pais assistiram pouco antes do assassinato destes últimos era, precisamente, uma película do Zorro.

O próprio traço da força descomunal já havia sido explorado e desenvolvido nos quadrinhos em uma personagem de pouquíssimo sucesso, mera nota cronológica: Hugo Hercules, tira desenhada por William H.D. Koerner para o Chicaco Tribune entre setembro de 1902 e janeiro de 1903, no qual a personagem homônima, um senhor de trajes vitorianos, ajuda seus concidadãos com sua força hercúlea; pensando nas influências de outras artes, não se pode esquecer o sucesso da série de filmes italianos de Gabriele D'Annunzio sobre Maciste (27 filmes na série original entre 1914 e 1927), explicitamente inspirado em Hércules.


Cabiria (1914), Bartolomeo Pagano como Maciste
 
Mas a inovação do Superman é indiscutível para o gênero, comparável ao Lazarillo de Tormes para o romance picaresco. Como aponta Nyberg (1998, p.16, apud GARCÍA):
Tão novo, na verdade, que o termo super-herói só foi cunhado vários anos depois do surgimento do Superman, o primeiro dos super-heróis dos quadrinhos. Os personagens super-heroicos distinguiram os comic books de outros meios e contribuíram para o crescimento do comic book, de curiosidade das bancas a um meio de massa. Em retrospectiva, é facil ver o impacto que esses super-heróis tiveram sobre a cultura popular americana, já que o super-heroi é atualizado e reiventado para cada nova geração.
Efetivamente, apesar do primeiro uso do termo "superhero" em inglês datar de 1908 (em uma tradução de Nietzsche), seu primeiro emprego em comic books se dá em um Tarzan de 1930, popularizando-se, primeiro em inglês e imediatamente nas demais línguas, somente a partir do início dos anos '60 (cfe. Harper). Uma rápida pesquisa com o Google N-Gram Viewer, para verificar a frequência de uma palavra em livros e revistas ao longo dos anos, demonstra claramente esta curva, comprovando, inclusive, um contínuo aumento de interesse pelo tema.


Esta compreensão, contudo, baseia-se no conceito de super-herói desenvolvido nos último setenta anos e, de modo especial, a partir justamente de meados dos anos '60, quando os super-heróis canônicos já estavam bastante desenvolvidos e antes do efetivo início das provocações ao conceito, que datam dos anos '80. Assim, termina-se por apagar uma personagem de grandíssimo sucesso à época, então mais popular que qualquer herói até agora mencionado, e à qual devemos parte da produtividade do citado traço da força sobre-humana (a noção da invencibilidade ou quase dos heróis já é um desenvolvimento; basta lembrar que, na primeira página do Action Comics #1, Superman estava longe de ser indestrutível, mesmo com elementos terrestres: "And nothing less than a burst shell could penetrate his skin!" [E nada além de uma bala pode penetrar sua pele!]).

Estou falando de Popeye the Sailor Man.


Popeye é hoje, no máximo, uma figura secundária no panteão dos heróis de quadrinhos, melhor compreendido como um herói infanto-juvenil de pouco interesse e mais lembrado pela irônica fonte de sua força, o espinafre (um mito que mostra o quanto é datado, pois há tempos se reconhece como a popular ideia vitoriana do espinafre como fonte de ferro era baseada num erro de impressão de um artigo acadêmico, que acrescentara um zero à quantidade do metal, efetivamente aumentando em dez vezes seus recursos -- como poderíamos fazer dizer a Aristóteles, a vida real nem sem é verossímil). Contudo, já em 1970, no ensaio The First (Arf, Arf) Superhero of them All [O primeiro (arf, arf) super-herói de todos], publicado no livro All in Color for a Dime [Tudo a cores por dez centavos], Bill Blackbeard argumentava que Popeye havia sido o "super-herói original", não apenas por sua força descomunal e por ser anterior a quase todos os demais (sua primeira tira é de 1929), mas especialmente porque o fenômeno Popeye ultrapassou em muito tudo quanto se deu com os heróis fantasiados em capas e máscaras que começaram a surgir depois dele (cfe. ComicBookBrains). Conforme a descrição de Blackbeard:
O Popeye de Segar é uma personagem composta de vulgaridade e compaixão, agressão bruta e gentileza protetiva, violento humor de beira-mar e sensibilidade genuína, teimosa cega e liderança imaginativa, inimizades brutais e amizades calorosas, capaz de derrubar um cavalo quando enfurecido mas também de cuidar de um bebê com uma febre capaz de estourar os termômetros. Ele não é um iludido paranoico, mas um homem de ação realista, complexo, frequentemente equivocado mas determinado que sofre constantemente com a agonia da decisão, que busca o que acredita ser o justo muito além dos limites da lei e da ordem em sua interpretação policia, que precisa abrir seu caminho para a compreensão por meio de idas e vindas da língua inglesa que são frequentemente demais para ele. (p. 94, tradução minha)
Descrição talvez mais apropriada para fanzine, mas não fácil de refutar. Contudo, é realmente
Swee'Pea (Gugu no Brasil)
suficiente para qualificar Popeye como o "primeiro super-herói"? Supérfluo dizer que a resposta depende da definição que se atribui ao termo e da vontade, consciente ou menos, de valorizar este ou aquele personagem, este ou aquele comic. Há um mito recorrente, aparentemente sustentado pelas fontes, de que quando a DC fez causa à Fawcett Publications alegando que o Captain Marvel era um plágio do Superman, um processo que durou mais de uma década, Fawcett teria apresentado não apenas Tarzan, mas também Popeye como um exemplo do gênero, alegando que a ideia de um herói com força sobre-humana já era de domínio público. Não creio que o reconhecimento dos antecedentes e motivadores do Superman de Siegel e Shuster diminua a qualificação de sua personagem como precursora: não são tanto, ou ao menos não são apenas, as características de cada um a qualificá-los como "primeiro", mas o desenvolvimento, a referência que constituem para o gênero. E não creio esteja em pauta que todas as narrativas atuais nas quais figura um super-herói são chamadas a se medir com o Superman, que é em relação a ele que dizemos se um dado herói é diferente ou não do arquétipo, e não com o Popeye. A evolução desta arte poderia ter sido diferente, e Popeye teve seu efeito, mas é em Superman que nasce o conceito de "super-herói"; substitui-lo por Popeye é tão justificado quanto a aceitável substituição por Hércules. Podemos resumir esta posição com as palavras de Gerard Jones (2004, p. 144,
Quaisquer que fossem os antecedentes para os poderes, o disfarce ou a origem do Superman que possamos encontrar em Edgar Rice Burroughs [o autor de Tarzan] ou Doc Savage, ou no Sombra, no Fantasma, no Zorro, em Philip Wylie ou no Popeye, nada jamais havia produzido uma leitura comparável. A vigorosa mistura de pastelão, caricatura e perigo já era familiar desde o Wash Tubbs de Roy Crane, mas Crane nunca deu o salto para uma fantasia tão pura. Hollywood havia criado momentos impressionantes a partir dos desastres naturais, e Douglas Fairbanks nos havia feito sentir o mesmo gozo de libertação física, mas não tinham nada que igualasse o prazer imediato destas cores planas e brilhantes e suas formas ferozmente simplificadas. Era a destilação das emoções mais potentes no mais puro lixo.
Talvez justamente no "prazer imediato destas cores planas e brilhantes" resida o diferencial da ação e do universo dos super-heróis, ao menos no formato mais estabelecido dos universos canônicos da DC e da Marvel. Se a força de Popeye não era inferior àquela do primeiro Superman (que nem mesmo podia voar, apenas "pular como um gafanhoto"), a tradição pictográfica nas quais se inserem obrigavam uma percepção e um desenvolvimento diferenciados. Popeye, assim como um herdeiro em parte paródico, Asterix, se filia ao estilo cartoon, à caricatura, no qual há menos pretensões de enganar o olho, menos sugestões realistas, e onde o jogo é reconhecido facultando a supressão da ordem real. As proporções podem ser exageradas, os efeitos podem ser libertados, e imperam a metáfora e a hipérbole. É assim que, já na primeira adaptação ao cinema, I Yam What I Yam (1933), Popeye pode jogar ao ar uma inteira floresta, as árvores já caindo no formato de uma casa.

Três fotogramas de I Yam What I Yam (1933)

O vocabulário e a sintaxe gráfica de Superman é diferente, mais próximo à posterior série dos Classics Illustrated da Gilberton Company, mais realista, num império da mimesis que, hoje com frequência, costuma exibir alguns tiques maneiristas. Não por acaso, já na primeira página do Action Comics #1 era necessário explicar a origem da força incomum do herói ("A scientific explanation of Clark Kent's amazing strength" [Uma explicação científica da força extraordinária de Clark Kent]); não por acaso, uma obsessão dos roteiristas dos cânones de super-heróis é justamente com a verossimilhança e a consistência, frequentemente solucionada por universos e reboots, das histórias. Se o traço de Popeye, assim como a própria personagem, se aplana e fica mais nítida com o passar dos anos, em paralelo a uma progressiva infantilização da fábula, em Superman o traço se torna cada vez mais realista mas sensível às vanguardas artísticas, enquanto os roteiros tentam agradar o mercado adulto, enquanto versões infantojuvenis adotam traços mais caricatos.

Superman and Wonder Woman, material de promoção DC, por Tony Daniel (2013)

Superman: The Animated Series (1996-2000), fotograma, fonte Wikipedia


Referências

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Cultura popular na idade média e no renascimento: o contexto de François Rabelais – 7ª edição. Tradução de Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 2010.

GARCÍA, Santiago. A novela gráfica, tradução Magda Lopes. São Paulo: Martins Fontes, 2012.

HARPER, Douglas. Online Etymology Dictionary: "superhero", obtido em 15 de dezembro de 2014 (http://www.etymonline.com/index.php?term=superhero)

JONES, Gerard. Men of Tomorrow. Geeks, Gangsters and the Birth of the Comic Book. Nova York: Basic Book, 2004.

LUPOFF, Richard. THOMPSON, Don (org.). All in color for a dime. Minneapolis: Arlignton House, 1970.

NYBERG, Amy Kiste. Seal of Approval. The History of the Comics Code. Jackson: University Press of Mississipi, 1998.

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